Resistência é a palavra de ordem do nosso tempo!

Manas, escrevo para vocês estas linhas. Minhas companheiras de luta, de várias frentes e de vários ângulos. A todas vocês, mulheres que singular e colectivamente não se têm deixado vencer pelas armadilhas do patriarcado e do machismo escrevo para vos dizer que estamos juntas.

Cada dia que passa, particularmente percebo como é importante continuarmos a resistir. Sim, é preciso continuar porque ainda há um longo caminho. Infelizmente, as conquistas de uma época podem ser invisibilizadas em outra época e quando menos esperamos, às vezes, surgem mudanças que nos fazem regredir. Mas, resistir é preciso, mesmo quando tudo parecer escuro, haverão sempre luzes lá ao fundo e estas mostrar-nos-ão que o nosso esforço vale a pena.

Conforta-me ver nos últimos tempos todo o movimento de mobilização e apoio em torno dos debates sobre a opressão sistémica que afecta as mulheres. Conforta-me ver como nos mobilizamos, partilhamos conhecimentos nas redes sociais, criamos pontes de solidariedade dentro e fora do virtual e incentivamos umas às outras a não mais calar perante injustiças. Vocês são um conforto enorme para o meu coração, reforçam a minha esperança.

Eu sei que muitas vezes a resistência acarreta dor, cansaço, somos humanas e é natural. Mas é nesse sermos humanas também que além da dor, do cansaço existem as possibilidades de nos reerguermos, de limpar as feridas, de amenizar e acabar com as dores mesmo que devagar. Eu sei que há dias em que fica tudo muito difícil, dá vontade de largar tudo, de se deixar levar pelo sistema, de baixar as armas e fingir demência porque as opressões são tão profundas que parecem nunca ter fim. Eu sei que há dias onde tudo o que nos perguntamos é “será que algum dia vou parar de ter medo de sair à rua (de dia ou de noite, sozinha) sem que me sinta como uma presa ou alvo fácil?”…

Eu sei que é difícil perceber como todo processo intenso de socialização combina inúmeros factores para nos dizer que devemos ser submissas, aceitar tudo, sacrificarmo-nos por tudo, abrirmos mãos de sonhos, anularmo-nos para sustentar relacionamentos, lares sem que nos tenhamos em conta.

Eu sei o que é ter crescido e viver numa sociedade onde muitas vezes não se pode ter voz ou se tem de gritar para se fazer ouvir, para ser levada em conta, para ser respeitada e para ser entendida como uma pessoa com direito a plena liberdade de ser e de viver. Mas é a noção dessas coisas todas que volta e mais volta faz-me pensar na importância da resistência porque nós temos de ser os sujeitos principais nas conquistas por espaços que também nos pertencem.

Lembremo-nos sempre que o nosso tempo de resistir é agora, é hoje e até quando tiver de ser. Lembremo-nos também que esta resistência terá frutos, mesmo que não sejam todos colhidos hoje e amanhã por nós, serão colhidos pelas mulheres que vêm a seguir a nós, tal como nós colhemos os frutos das lutas das outras mulheres que nos antecederam.

Este é o nosso tempo, o nosso aqui e agora, vamos resistir. Não serão só flores no caminho, mas teremos vitórias também, veremos outras mulheres a caminharem para a liberdade. Vamos inspirar-nos umas nas outras, vamos inspirar-nos nas nossas ancestrais, vamos inspirar-nos nos vários outros movimentos de luta pelos direitos das mulheres pela África e pelo mundo, vamos colher exemplos e lembrarmo-nos desta rede que se estende além-fronteiras. Sigamos juntas, por nós, pelas manas e para as manas!

Alguma coisa não está bem

Preocupou-me bastante o índice de negativas nos resultados do concurso público que foram publicados recentemente, um pouco por todo o país.

Desde que pousei os olhos nas pautas daqui do Namibe, e naquilo que vi pelos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, não parei de pensar nesses resultados. Por exemplo, na terça-feira passada, 24 de Julho de 2018, o programa Jornal da Tarde da TPA1 noticiou que dos 3 mil candidatos que fizeram exame na província do Bengo 70% foram reprovados. Vi, no mesmo dia, ainda neste jornal, imagens de pautas de alguns cantos de Luanda onde o vermelho predominava. Da Huíla, vários amigos partilharam nas redes sociais imagens de pautas onde as notas eram péssimas e predominava o índice de reprovados.

Olhando para resultados tão desanimadores, penso eu, que estamos diante de um problema sério e que precisa ser reflectido por todos. Aos candidatos deste concurso público exigiu-se, sobretudo, que tivessem formação em Educação, salvo algumas excepções que eram relativas a cursos cujas especialidades extrapolavam a formação que se recebe nas Instituições de Formação de Professores. A base desse concurso era que os candidatos tivessem feito o Ensino Médio ou o Ensino Superior em Instituições de formação de professores.

Entretanto, chegados até aqui, deparamo-nos com uma grande maioria vinda de Instituições onde se formam professores a apresentarem resultados péssimos. Deparamo-nos com um tanto de notas a rondarem entre 0 a 6 valores. Como se explica, olhar para uma pauta de pouco mais de 300 pessoas a concorrem e chegarmos perto de 10 notas positivas? Onde é que está o problema?

Os alunos é que são os preguiçosos? Os alunos é que foram os preguiçosos e menos dedicados durante os anos de formação? As provas foram muito difíceis? As comissões que elaboraram as provas queriam dificultar a vida aos candidatos? As pessoas que corrigiram, em simultâneo, nas diferentes disciplinas, nos vários cantos do país, decidiram atribuir notas baixas a maior parte dos candidatos? A formação dos candidatos é questionável? A formação dos ex-professores dos candidatos é que é a questionável? As Instituições de Formação de Professores têm funcionado em condições? O NOSSO SISTEMA DE ENSINO tem funcionado? A base do nosso Sistema de Ensino tem funcionado? Onde é que está o problema?

Se temos esse tipo de classificações a nos serem esfregadas à cara, penso que, é um sinal de que alguma coisa não está bem. Então, precisamos sentar, como se estivéssemos à sombra de uma mulemba, para conversar sobre o futuro da nossa Educação. Atrevo-me a dizer: sobre o futuro do nosso país. Aflige-me pensar e ver que os resultados de um período de formação nas nossas Instituições de Formação de Professores nos sejam, posteriormente, apresentados desta maneira.

Não estou a dizer que não existiram e não existem excelentes alunos e excelentes professores nessas Instituições, não é isso. Passei por uma Escola de Formação de Professores no ensino médio e também por um Instituto Superior de Ciências de Educação na faculdade, enche-se-me de alegria o coração quando me lembro de alguns excelentes professores que tive no meu período de formação. Mas, o que me preocupa aqui é a maioria e não as excepções; e a maioria perfaz o vermelho gritante nas pautas, a maioria está a atirar-nos à cara que alguma coisa não está bem e nós precisamos sentar, em conjunto, para conversar com sinceridade.

Muito do que aprendi nos últimos anos, nas Instituições onde passei, resume-se no facto do quão a Educação é importante para o desenvolvimento, a todos os níveis, de um país. A Educação é a maior e melhor herança que uma pátria pode deixar aos seus filhos. Mas essa Educação constrói-se com a ajuda de todos. Para deixarmos essa herança segura e com qualidade precisamos de ter agentes (professores) no Sistema de Ensino/Educação, em primeiro lugar, devidamente formados e, a seguir, comprometidos com a passagem de tal herança. Como vamos construir um caminho de Excelência quando os agentes implicados directamente nesse processo de construção apresentam-se no final da formação dessa maneira?

Que não se entenda essa abordagem como uma crítica a forma como o processo de selecção dos candidatos decorreu. Foi, dessa vez, um processo cuja seriedade notou-se em muitos aspectos e é assim que deve ser daqui para frente, nos próximos concursos públicos para o sector da Educação. A preocupação aqui não é com o processo de concurso mas com o que acontece antes dele. Creio que concorrem vários factores para termos chegado até aqui. Reitero, reitero, que precisamos sentar e falar sobre isso de forma sincera. Eu levanto a mão e voluntario-me para fazer parte dessa conversa.

Os sinais estão-nos a ser dados, devemos dar importância a eles. Pensemos todos não só em nós mas no futuro. Recuso-me a aceitar de ânimo leve que a Educação do nosso país está e estará nas mãos de agentes com uma formação deficiente. Pensemos todos que os professores e as pessoas que passam por eles são e serão servidores públicos nas diferentes áreas que se completam para alavancar o país, nesse caso, de uma forma ou de outra a qualidade da formação que tanto alunos como professores recebem diz respeito a todos. Estamos numa máquina onde, mesmo que não nos vejamos a todos, cruzamo-nos de alguma forma nalgum sítio de serviço ao público. Então, pensemos todos no que queremos para hoje e para amanhã!

Redefinir Prioridades e pensar nas Necessidades: precisa-se!

As prioridades e as necessidades são daquelas coisas que todas as pessoas que governam um país ou outro sítio qualquer deviam ter a plena noção e mais do que isso deviam lembrar-se todos os dias. Prioridade, segundo uma definição retirada de um dicionário algures, é aquilo que está em primeiro lugar ou aquilo a que se dá primazia, e Necessidade é o que realmente se precisa e essencial para o bem-estar. Mas nós, por cá, andamos num ciclo vicioso – há muito tempo – que consiste em deixar as prioridades e necessidades reais sempre em segundo plano. Se não se sabe o que o povo realmente precisa, e, principalmente, se não se conhece as reais necessidades do mesmo então o resultado é este: dar a mínima atenção aos problemas reais das pessoas.

Um país, acredito eu, se faz e se constrói com as pessoas que vivem nele, em função disso essas pessoas precisam ser valorizadas e postas em primeiro plano. Se se criam projectos e definem-se planos a nível macro, meso e até micro estes tem de reflectir o cidadão, as necessidades reais do mesmo e acima de tudo precisam ir ao encontro de tais necessidades para as suprir.

Longe de desmerecer e desvalorizar tudo que já se fez, precisamos pensar, cada vez mais e com mais seriedade no que ainda não se fez. Ficar só pela intenção não basta, ficar só pelos projectos nos papéis também não basta e ficar só pelas visitas também não basta. É importante que quem governa crie mecanismos para chegar até ao “cidadão comum”, e mais importante é que quem governa se lembre do cidadão todos os dias depois do dia do voto! Começamos uma nova era depois das eleições de 23 de Agosto, pode não parecer mas começamos sim. É fundamental que nessa nova era se priorize tudo o que não se tem priorizado de facto ao longo desses anos, que se dê as pessoas dessa vasta Angola não apenas migalhas mas se criem verdadeiras condições para a melhoria da qualidade de vida.

Existem no nosso país pessoas vivendo em extrema pobreza e só nega isso quem decide viver opcionalmente na cegueira. Existem pessoas sobrevivendo com 1000 kz por semana ou menos. Existem pessoas nesse país tentando conseguir ter ao menos uma refeição por dia, vivendo o extremo da pobreza, enquanto noutro extremo existem pessoas vivendo em pontos altos da riqueza e com privilégios até acima do pescoço. Um país sadio não se constrói assim, não se desenvolve com essas enormes desigualdades.

Gritam, silenciosamente, todos os dias as inúmeras crianças fora do sistema de ensino. As inúmeras crianças que gostavam de ter as mesmas oportunidades, o mesmo acesso a um caderno e a um lápis para também construir um futuro para si mesmas. É necessário pensar nessa Angola que estamos “com ele” e ver para onde estamos a ir. Acredito que ainda temos tempo de mudar, de nos orientarmos e nos melhorarmos.

O rapaz disse-me “mana, estudei até a 5ª classe, mas parei porque a escola fechou, era na igreja. A professora foi embora e como a mamã não tinha dinheiro para nos matricular noutra escola minhas irmãs e eu estamos sem estudar. Mas eu queria muito continuar a estudar só que tenho de vender para ajudar a mamã lá em casa, normalmente o que ela vende não chega muito então tenho de ajudar…” e eu ouvi isso com uma vontade enorme de chorar. Só pude dizer-lhe que esperava que nalgum dia ele e outras crianças tivessem as mesmas oportunidades. Queria também poder dizer-lhe que gostava de ter poderes para poder mudar o mundo e torná-lo melhor.

Esse rapaz é o reflexo de muitos outros e sua mãe também é o reflexo de muitas mães desse país a fora. Desse país rico e onde, acredito, podemos caber todos! Cabemos sim, se se investir na promoção da igualdade e justiça. Cabemos sim, se se investir naquilo que é prioritário e realmente necessário para o povo. Lexus não constroem escolas, só perpetuam desigualdades; aeroportos em localidades onde para se viajar de carro já é uma luta enorme para muitas pessoas não melhoram muito a vida de quem está a volta deles. Orçamentos do Estado em que se investem pouco em Saúde e em Educação demonstram claramente que se precisa redefinir as prioridades e pensar nas necessidades da população.

É imprescindível pensar e constantemente buscar entender o bater do coração desta Angola enorme e de todos para, deste modo, de facto “corrigir o que está mal”!

Pensem nas inúmeras crianças que ficarão fora do sistema de ensino por mais um ano e por um momento coloquem-se em seus lugares. Sentem a dor delas?! Se não sentirem, então o buraco é ainda mais fundo do que pensamos.

 

Quem olha por nós afinal?

Crescemos com a crença de que família é para todos os momentos. Essa crença é mais forte em uns do que em outros, o que é natural de acordo ao ambiente e lar em que individualmente crescemos. Desde pequenos ensinam-nos a respeitar o tio(a) mais velho, o primo(a) mais velho, o amigo do pai ou da mãe mais velho e este último mesmo não sendo parente directo, ainda assim deve ser tratado como tal. E destas pessoas, pela consideração que aprendemos a ter, esperamos tudo menos que nos façam algum mal. Mas e quando as pessoas em quem supostamente devíamos confiar são as que nos causam alguns dos piores males?!

O assédio sexual dentro da família é, infelizmente, um dos males mais reais da vida de muitas mulheres na nossa sociedade. São as pessoas que sentam à mesa connosco, que sorriem para nós, que vêm lá a casa para visitar a família ou até mesmo que vivem connosco que criam um ambiente que nos oprime, que nos deixa sem saída e que nos faz viver dias de tormentos.

Quantas mulheres e meninas carregam – e carregaram – em si a pressão do assédio daquele tio, o mais velho da família, o “respeitado” e que todos tinham como exemplo? Quantas mulheres e meninas carregam na alma e no corpo as marcas do estupro que teve início com o assédio constante daquele primo directo, o mano que ia constantemente lá a casa visitar a família e que todo mundo adorava? Inúmeras! Muitas de nós carregam marcas dolorosas de situações de assédio. Marcas que nos mostram como a violência contra as mulheres ainda é maioritariamente normalizada e negligenciada e que, infelizmente, nem dentro da família estamos totalmente a salvo.

E não estar totalmente a salvo dentro da família não tem que ver apenas com o facto de serem parentes próximos – ou distantes – os primeiros a nos assediarem, mas também com o facto de ser a própria família que mesmo despois de tomar conhecimento de situações de assédio e em muitos casos de abuso sexual oculta e fecha os olhos como se nada tivesse acontecido sob pretexto de se “salvaguardar o bom nome e harmonia na família”. Todos conhecemos algum exemplo daqui e dali!

O silêncio e a falta de acção da família nesses casos torna mais vulneráveis as vítimas, contribui para que estas se silenciem, não denunciem e perpetua o ciclo de opressão a que mulheres estão e são sujeitas. Se se cresce num lar onde se está acostumada a ver as pessoas que nos rodeiam não darem importância a violência que as mulheres sofrem e ao sofrimento que isso lhes causa, então fica-se sem armas para lutar, para denunciar, para resistir contra quem nos magoa. Se se cresce num lar e numa sociedade em que se culpabiliza as mulheres por tudo, pelas feridas e dores que os outros lhes causam então vemo-nos obrigadas a reprimir o que sentimos, a suportar e a permanecer de cabeça para baixo com vergonha do que não fizemos. E mais do que tudo com medo!

Se todas as mulheres contassem tudo que já passaram por conta do assédio veríamos como estamos diante de um problema que não tem nada de leve. Se todas pudessem contar sem medo e sem a culpa – que nos ensinam a carregar – saberíamos o quão assustador é o número de mulheres que já foram assediadas antes dos 15 anos dentro da própria família.

É imprescindível que enquanto família se tome atitudes perante casos de assédio. Procurar manter “a harmonia no lar” pode simultaneamente significar destruir vidas, cavar buracos de dor e deixar marcas incuráveis na alma das meninas que têm de lidar com isso uma e outra vez. É importante também falar sobre isso dentro e fora da própria família, que se vençam os tabus, que se deixem de lado as aparências, que parem as tentativas de preservar a imagem dos irmãos, tios mais velhos, primos, amigos de casa que fazem mal às meninas. Precisamos encarar o assédio como um problema não menos importante que os outros e procurarmos soluções para o mesmo.

E acima de tudo, importa que se criem pontes, dentro e fora de casa, que transmitam segurança as mulheres e meninas nesses casos. Que se criem laços e se mostre as nossas irmãs, primas, sobrinhas, amigas que elas não estão sozinhas e podem sempre contar com o nosso apoio.

 

Sem dívidas!!

Uma cena que acontece muito quando se está na sala de espera de algum sítio onde se presta serviço ao público é despropositadamente encontrarmo-nos a ouvir conversas que não queríamos e preferíamos que fossem tidas a quilómetros de distância de nós. Normalmente, isso acontece porque existem inúmeras pessoas que não percebem a importância de falar baixo e respeitar os outros ao lado. E ainda, há outras que com a intenção de gabar-se por alguma coisa, no meio de muita gente, ao contar a alguém seus feitos “prodigiosos” elevam o tom de voz para que todo mundo ouça e fazem aquele papel ridículo de falar ao vento porque normalmente tais feitos não interessam nem a metade de quem está a volta.

E numa dessas situações, que infelizmente não foi a primeira, muito recentemente, enquanto esperava a minha vez de ser atendida (num sítio de serviço ao público) dei por mim a ouvir uma conversa desagradável – pelo menos para mim. Estava na fila, atrás de mim, um jovem a gabar-se alto aos amigos ao lado do facto de bater na namorada várias vezes como forma de se impor e de fazê-la ter respeito. Depois de ouvir isso e ter ficado desconcertada eis que o relato do jovem continuou e acrescentando aos horrores que dizia referiu bater na irmã também como forma dela aprender a respeitar os homens. Ele falava como “herói” e os amigos concordavam e exprimiam satisfação na forma como apoiavam o outro que se orgulhava de ser um homem que “sabia colocar as mulheres nos seus devidos lugares”. Não queiram imaginar como me senti e reagi a tudo isso, não foram sensações agradáveis.

O que pretendo reflectir aqui, com esse exemplo real de relato, é como a violência contra a mulher e nessa abordagem em específico a agressão física é normalizada. O relato do jovem acima pode parecer ser um caso isolado: só que não! Pode também ser só mais um caso e, na verdade, é só mais um caso mesmo. Entretanto, um caso que, a semelhança de tantos outros, nos devia importar e preocupar. Numa situação como essa a pessoa não sabe se se sente mal por ouvir alguém relatar com satisfação que agride outrem ou se se sente mal por ver os outros concordando com a mesma satisfação e pelos motivos mais ridículos do mundo.

É bastante comum, infelizmente, na nossa sociedade a violência física (agressão) contra a mulher. Muitos de nós já presenciamos ou já ouvimos falar de algum caso desses – próximo ou distante. Inúmeras mulheres, todos os dias, são agredidas por pessoas próximas a elas e em muitas das vezes os agressores acabam impunes e vão repetindo e repetindo o processo de agressão por causa da impunidade. Infelizmente, essa impunidade é subsidiada, por um lado, pelo sistema de justiça que começa em primeiro lugar por perguntar a mulher o que ela “fez” ou se “provocou” e automaticamente a transmitir de forma directa ou indirecta a ideia de que a mulher é sempre culpada e com isso desvia o foco do agressor e quando o pune acaba sendo de forma leve muitas vezes. E por outro lado, pela sociedade que muitas vezes fecha os olhos diante de relatos como o referido no início deste texto e justifica o agressor com argumentos absurdos como os do “respeito.”

Uma coisa que parece estar enraizada na cabeça de muitos homens (e de mulheres também por força da socialização) e que infelizmente, parece, se transmite de geração a geração é que as “mulheres devem respeito aos homens porque eles são homens” e basta! É frequente ouvir argumentos absurdos do tipo “ah, mas ela tem que me respeitar porque sou o homem; ah, mas ela tem de obedecer e ser submissa porque ele é homem; ah, mas o homem é homem e manda e mulher deve-lhe respeito por isso”. Tais argumentos são sustentados por ideologias religiosas, por costumes, por tradições e por culturas que normalmente favorecem mais a uns do que a outros, ou seja, privilegiam homens e subalternizam e oprimem a liberdade e direitos das mulheres. Nisto, importa realçar alguns pontos que considero serem muito importantes:

· Mulheres não devem nada aos homens!

· Se, naturalmente (tendo em conta o primeiro ponto), mulheres não devem nada aos homens, então a escala de “dívidas” que já é de 0% permanece no mesmo número quando o argumento é “elas devem porque eles são os homens”;

· Ninguém se consegue fazer respeitado por meio da violência! O máximo que se consegue quando se parte para a agressão física com o intuito de ganhar respeito é, no fundo, que o outro tenha medo e possivelmente desenvolva desprezo por nós, mas respeito não!

· O mundo não gira em torno da religião de uns e de outros, por isso, só porque a tua religião diz que “mulheres devem respeito e submissão aos homens” não significa que esta é uma verdade absoluta e que o mundo todo tenha de a seguir ou ter como padrão moral máximo;

· Culturas, tradições, costumes que privilegiem mais a uns que outros e perpetuem formas de injustiça e de opressão não devem ser mantidos ou endeusados. É necessário questionar e ver até que ponto aquilo que mantemos como correcto e “cultural”, afinal não tem base justa!

Quando se quer manter posições de privilégios e perpetuar a ideia do “respeito” são frequentes argumentos, de que “isso é nosso; é cultural ou tradicional; é africano; no tempo dos nossos pais já era assim…” e por aí vai. Entretanto, enquanto seres que pensam é importante nos questionarmos, questionar os nossos modos de vida, principalmente quando estes modos são injustos. Qualidade de vida, bem-estar social, justiça e igualdade entre todos são estágios que passam também pelo questionamento, pela auto reflexão dos nossos privilégios e de se estar disposto e aberto a abrir mãos destes quando se quer de facto um mundo melhor e justo.

Particularmente, acredito que pessoas que necessitem recorrer a violência física como forma de obter respeito são as que menos respeito merecem. Somos todos seres humanos, nem menos nem mais do que uns e os outros. Se deve haver respeito é por isso: por sermos todos iguais e merecemos o mesmo tratamento em todos os níveis e espaços (tanto públicos como privados). Por isso, não permita que sistemas de opressão contra as mulheres permaneçam, não permita que a violência física contra as mulheres se perpetue, podemos todos fazer alguma coisa. Podemos nos sensibilizar uns aos outros e chamar atenção para a justiça respeito aos direitos de todos. Violência física é crime e não deixar passar é uma forma de contribuir para uma sociedade que seja realmente de TODOS!

Vidas de areia: retratos…

Lugares, desde países às pequenas ou grandes cidades, são construídos e marcados pelas pessoas que habitam neles. São as vidas, as histórias das pessoas que caracterizam em grande parte os lugares em que estas vivem. Vidas De Areia, livro de Divaldo Martins, além de representar muitas outras coisas é prova da primeira afirmação feita no início deste texto. Um retrato de vidas singulares e que se cruzam em algum momento, um retrato de lugares, de momentos… E quem sabe não será também um retrato de um pouco de cada um de nós?! Um retrato mais directo para uns e menos para outros.

 As histórias que se entrelaçam no livro têm como palco principal Luanda, entretanto outros lugares de Angola são também representados pela rica diversidade de personagens que perfazem a obra. E a riqueza de Vidas De Areia está patente não só na diversidade das personagens, na forma como estas foram construídas e como suas histórias de vida prendem o leitor a cada linha escrita, mas também nos modos de apresentação da narrativa onde se destaca de forma fascinante o processo de descrição. Percebe-se que por detrás das linhas foram usados recursos de estilo que dão à narrativa um sabor muito bom e denotam o esmero do autor na concepção e construção do livro. Num contexto de uma Angola em guerra civil várias vozes se levantam e contam suas vivências que ora distanciam ora aproximam muito o leitor de cada situação. Dentre estas vozes que se levantam destacam-se as das mães, aquelas que se doaram incondicionalmente e esqueceram suas próprias vidas para viverem com único propósito: sustentar os filhos e dar-lhes uma vida um pouco melhor mesmo quando a esperança se escondia atrás das balas e tiros incertos.

Os conflitos sociais, étnicos e políticos abordados no livro, num contexto de guerra e pós guerra civil demonstram parte importante da nossa história, da história deste país que temos hoje. E quem os presenciou terá um relembrar doloroso em muitos momentos, a medida que for lendo, mas para aqueles que, como eu, não vivenciaram directamente tais conflitos será uma fonte de aprendizado sobre o que a guerra faz com as pessoas, como as transforma para o bem ou para o mal e como consequentemente através das pessoas ela muda um país.

Mergulha-se em reflexões intensas em Vidas de Areia, questionam-se e põem-se à prova valores morais e sociais; as crenças e a fé tanto nalgum ser superior como na própria vida constituem pontos de reflexão importantes também e fazem-nos olhar para nós mesmos: para a forma como vemos o mundo! As vozes de Vidas de areia são retratos de um passado cujas marcas de tão profundas que são se cruzam ainda com o presente, entretanto ensinam-nos também que o futuro pode ser diferente do passado, pode ser melhor, se todos darmos um pouco de nós para que assim seja.

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Através da Chuva: mundos que se cruzam…

Propor-me a falar sobre o Através da Chuva, livro do escritor Miguel Gullander, não é tarefa fácil pois não sou, nem de longe, um daqueles peritos em crítica literária que desvenda os segredos de um livro e traz acima, como um Prometeu, aspectos que os leitores não imaginavam presentes no mesmo. Também não sou uma “gigante” no que concerne a conhecimentos sobre literatura ou uma “entendida” na matéria. Sou apenas uma menina apaixonada pela literatura que acredita no poder da palavra, principalmente no poder da palavra escrita. Além de não ser fácil pelos motivos que já referi, acrescento o facto de se estar diante de uma escrita madura, capaz de nos levar até ao mais profundo do nosso imaginário e questionar as nossas convicções, questionar preconceitos, questionar a nós próprios sobre o sentido da vida. E mais ainda, faz-nos questionar sobre o sentido que damos a nossa vida e como damos.

Entre os vários palcos sobre os quais a narrativa acontece, destacam-se Angola e Suécia, no entanto, destaca-se mais ainda, em relação ao espaço, o casamento perfeito que se faz na obra entre os dois lugares. Dois países distintos, longe um do outro por milhares de quilómetros de distância, com modos de vida diferentes, com culturas diferentes, com tradições diferentes, com mitos e crenças diferentes mas que se cruzam em Através da Chuva e transpõem todas as barreiras possíveis e, sobretudo, mostram-nos que enquanto seres humanos estamos mais entrelaçados do que todos nós imaginámos.

Dois mundos que se cruzam entre personagens singulares que também se cruzam e reflectem-se em espelhos paralelos mostrando um pouco de cada um de nós, independente de onde sejamos ou pertençamos. Somos levados à reflexões: das mais simples as mais complexas. A cada página, um pouco mais de profundidade. Uma escrita que nos mostra e faz sentir a eternidade e simultânea efemeridade do tempo. Esse tempo pode ser o da narrativa – o tão bem trabalhado tempo da narrativa. Mas pode ser também o tempo da nossa vida, do dia-a-dia; o tempo que temos para fazer nossa existência valer a pena ou ainda o tempo que talvez tenhamos para construir um futuro melhor que o presente ou o passado. E esse tempo, na narrativa, é tão inquieto, tão impermanente que nos faz viajar desde o deserto imponente do Namibe, passando pela Baía Azul de Benguela, por Luanda, por Malange por Lisboa até as ruas de Estocolmo na Suécia. E vice-versa.

Aspectos característicos da cultura e espiritualidade africana se cruzam com mitos e crenças suecas de formas ora implícitas ora explícitas. A viagem do velho Svart, o protagonista da história, da Suécia até a Angola com o objectivo principal de avistar uma Palanca Negra Gigante acaba sendo um cruzamento entre dois mundos, dois continentes, dois países distintos mas que se revelam próximos – afinal somos todos feitos pelo mesmo tecido…

A viagem do velho Svart para avistar, no coração de Angola, um animal raro e único em todo o universo, também acaba sendo uma viagem de cada um de nós. Uma viagem para dentro das nossas sociedades e uma chamada de atenção para a forma como as construímos, como as tornamos desiguais e as poluímos com as nossas próprias acções. Uma viagem para dentro dos nossos modos de vida. Uma viagem para questionar os nossos preconceitos de raça, de cor e perceber como matamos uns aos outros por motivos que nunca valem a pena. E no final das contas uma viagem fascinante para dentro de nós mesmos!

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Ondjango feminista: construindo pontes de solidariedade.

 

Lembro-me de me terem dito inúmeras vezes que ser feminista era uma perca de tempo e mais ainda ser feminista em Angola onde, tal como nas outras partes do mundo, as estruturas sociais, familiares, religiosas, governamentais e outras têm como líderes máximos e principais decisores figuras masculinas. Lembro-me de como várias vezes perguntei-me se valia realmente continuar, se não era melhor ceder a pressão das pessoas a minha volta, ceder a pressão de ter perdido amigos, de ser incompreendida e ser vista como louca ou exagerada por falar de direitos que mulheres não tinham, por falar de respeito, por falar de igualdade e por falar de justiça. Lembrar de tudo isso hoje, depois do sexto encontro do Ondjango Feminista, fez-me certificar mais uma vez que valeu a pena continuar, valeu a pena aguentar tudo que apareceu (e ainda aparece pelo caminho) para tentar desmotivar e invalidar a luta por uma sociedade mais justa.

Antes de avançar as linhas importa realçar e fazer entender o que é afinal o Ondjango Feminista. “É um movimento autónomo de mulheres feministas com o objectivo de advogar pela realização de direitos humanos de todas as mulheres e meninas em Angola, através do activismo, solidariedade e educação.” O Ondjango Feminista realizou o seu sexto encontro no passado dia 5 de Novembro sob o lema “Construindo pontes de solidariedade” no centro cultural Brasil – Angola e reuniu mulheres de diferentes partes do país, de diferentes áreas de intervenção social para abordar, analisar, desvendar temas relativos às vivências das mulheres e meninas em Angola. Foram expostas e analisadas o máximo possível estruturas de opressão e exploração e as formas de violência a que mulheres e meninas em Angola estão e são submetidas. Foram pensadas formas de se combater essas estruturas e tornar a nossa sociedade mais justa, mais de todos. Foram pensadas de forma conjunta estratégias para construir pontes de solidariedade entre as mulheres, pontes que sirvam para trilhar caminhos que levem a mudanças significativas na vida das mulheres e meninas em Angola.

Diferente do que muitos pensam feministas em Angola sabem sim o que querem, sabem que a luta é enorme, que não é fácil e que muito há por ser feito. Mas, por todas as mulheres que sofrem/sofreram/estão (infelizmente) sofrendo violência doméstica nós vamos continuar a lutar; por todas as mulheres que foram (e têm sido) abusadas sexualmente e ficaram com a vida marcada e traumatizada nós vamos continuar a lutar; por todas as mulheres e meninas que não têm acesso a educação só por serem mulheres, que têm a saúde reprodutiva negligenciada e sem cuidados nós vamos continuar a lutar; pelas injustiças que mulheres sofrem no acesso a empregos, a ascensão e desenvolvimento profissional nos locais de trabalho nós vamos continuar a lutar; para o fim de acções que inferiorizam, humilham e colocam as mulheres em segundo plano e muitas vezes as desumanizam nós vamos continuar a lutar; pelo fim da cultura que hipersexualiza mulheres e as reduz a meros objectos descartáveis nós vamos continuar a lutar. Sabemos que somos nós por nós, que é necessário que nossas vozes se ouçam então: Nós estamos aqui, Nós pensamos, Nós sentimos e Nós queremos e vamos cada dia mais lutar por uma sociedade melhor.

Infelizmente a mulher ainda é, maioritariamente, aquela que não tem escolhas, que não decide, que tem de se submeter e ouvir e calar para não perturbar a paz patriarcal. Mas nós estamos questionando todos os padrões que nos impuseram como correctos e nos impedem de sermos tratadas de forma digna e igual, nós estamos dizendo chega as coisas que nos oprimem!

Sabemos que mudanças não acontecem do dia para a noite, que vitórias as vezes demoram a chegar, que caminhos como o que nos propusemos a trilhar requerem muita paciência, coragem, força e determinação. Entretanto, ainda assim não desistimos, vamos procurar construir as pontes de solidariedade que forem necessárias para a mudança, para igualdade e justiça. Com o espírito de irmandade, de empatia, de carinho do sexto encontro do Ondjango Feminista o caminho é para frente com ou sem barreiras.

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Mulheres não são objectos descartáveis…

Dentre os nomes pejorativos que vários homens, neste caso angolanos em específico, chamam às mulheres um dos que mais detesto e acho horrível é “mambo”.

Mambo, até onde sei, é um populismo e dentro desta camada do léxico é especificamente um calão que nós por cá usamos para designar algum objecto, alguma coisa inanimada, ou seja, designar algum objecto descartável. Ainda, por extensão semântica, designa também algum acontecimento, algum facto, como por exemplo dizer-se “aquele mambo estava muito bom” para se referir a uma festa. Entretanto, o primeiro significado é o que interessa abordar aqui, é no sentido de “coisa/objecto” que muitos homens se referem às mulheres. São frequentes frases como “a fulana é meu mambo” ou ainda “estou a curtir com aquele mambo” como forma de dizerem entre si que estão com alguma mulher.

Esse termo ou forma de designar às mulheres só revela o pensamento e a cultura machista (quer uns aceitem quer não) em que vivemos e em que estamos infelizmente todos metidos. Tratar um ser humano igual como um objecto descartável é desumanizá-lo ainda que isso não se faça “conscientemente”; é também demonstrar que o fundo ou a base do nosso pensamento em relação ao OUTRO (nesse caso a mulher) a partida tem-no como inferior. E as acções relativamente a esse OUTRO serão maioritariamente projectadas de forma a fazer valer a superioridade que se pensa ter sobre o mesmo.

A cultura machista que tem como base a superioridade de homens sobre mulheres, propagada um pouco por todos (maioritariamente por homens mas por mulheres também) ensina desde cedo aos homens que eles têm direito a fazer o que quiserem com mulheres desde assediar, estuprar, coagir a fazer alguma coisa, praticar violência física ou psicológica, desmerecer e tratá-las como subalternas e diante disso elas devem simplesmente calar e serem “submissas”. No entanto, não dá mais para calar e permanecer submissa ou permanecer sempre às ordens. O silêncio tem matado mulheres, tem permitido que vidas se percam por conta da violência doméstica. A “submissão” que se cobra das mulheres tem contribuído para a permanência da condição de desumanidade a que elas são submetidas.

Permanecer em silêncio e aceitar ou concordar com nomes como “mambo” é aceitar ou concordar com a condição de objecto descartável que pode ser usado conforme seu “possuidor quiser” e depois ser jogado fora; é perpetuar a ideia de que mulheres não têm autonomia suficiente sobre suas vidas, sobre suas decisões; é ser conivente com a exploração e subalternização a que fêmeas humanas são submetidas. Pode parecer “exagero” abordar esse facto mas o pano de fundo disso espelha uma cultura machista que asfixia e prejudica a vida de inúmeras mulheres um pouco por todos os cantos. É uma cultura que precisa acabar, precisa ser combatida por todos por uma questão de respeito aos direitos humanos.

A cada momento que um homem olha para uma mulher como igual, pensa numa mulher como igual – e abre mão de algum privilégio – ele está dando um passo e permitindo que a sociedade em si dê um passo para, por exemplo, acabar com actos como o casamento infantil, o impedimento ao acesso a educação e auto desenvolvimento de meninas/mulheres e está-se automaticamente também permitindo que a sociedade se desenvolva com a contribuição de todos independente do “género”. Uma sociedade saudável constrói-se com a ajuda de todos, com respeito mútuo.

Mulheres não são objectos de consumo, não são objectos descartáveis, portanto não são “mambos”!

Feminismo: a nossa voz!

 

Falar de feminismo na nossa sociedade angolana tem gerado bastante polémica. Esta polémica é muitas vezes causada por aqueles que não sabem o que é o feminismo e se prontificam a fazer juízos com uma rapidez que os leva a chegar a conclusões completamente distorcidas sobre o que é o movimento. Antes de avançar vamos então a uma pequena definição do que é feminismo: movimento político, filosófico e social que defende igualdade de direitos entre mulheres e homens. E não defende superioridade das mulheres sobre os homens ou apregoa “o fim da paz mundial” como muitos pensam, aliás a paz mundial é coisa que outros se ocupam em prejudicar.

O feminismo surgiu da necessidade de se fazer justiça em relação as mulheres que eram sempre deixadas em segundo plano e tratadas como meras serventes domésticas, ou seja, só serviam para cuidar da casa e parir filhos e nem sequer fazendo isso recebiam “algum valor”. As mulheres não decidiam, não opinavam, nem sequer a definir ou planificar sua própria vida tinham direitos: homens decidiam absolutamente tudo, definiam os caminhos em que as mulheres deviam andar, como e com quem deviam falar, casar, quantos filhos deviam ter, como se deviam vestir, sentar e a lista de “regras e proibições” é enorme… entretanto, aos homens se permitia tudo, nada era proibido e exercer o poder sobre as mulheres era das coisas que mais era direito deles.

Diante das desigualdades, mulheres corajosas começaram lutas que até aos dias actuais nos servem de base e inspiração para nós continuarmos a lutar por um mundo igual e justo. O feminismo tornou-se a nossa voz, nossa arma para enfrentar as batalhas de desigualdade em vários campos da sociedade. Há quem diga que na sociedade angolana não se precisa de feminismo e outros ainda dizem que só precisamos todos ser humanistas para acabar com todas as maldades que assolam a sociedade. Só que não é bem assim. Enquanto existirem milhares de mulheres a perder a vida a cada dia por causa do estupro e violência doméstica, enquanto existirem meninas sendo casadas em menor idade com adultos, enquanto o assédio sexual for visto como normal, enquanto existirem mulheres sendo impedidas de se auto desenvolver intelectual e profissionalmente, enquanto nos for negado o direito a decidir o que fazer com nossos corpos (e não usá-lo só para dar um monte de filhos a um homem), nós usaremos o feminismo como voz sim para reclamar os direitos que nos são negados, quer alguns queiram quer não.

Alguns dos principais objectivos do feminismo são que mulheres tenham poder sobre elas mesmas, que as mulheres sejam cada vez mais independentes e livres de todos padrões que foram impostos pelo sistema patriarcal baseados em “mulher não pode isso e aquilo, mulher deve ser isso e aquilo”. Nós estamos dizendo não a esses padrões de comportamento e com nossa própria voz dizendo Podemos Sim! Ainda, fazem parte dos objectivos feministas o desenvolvimento profissional da mulher em todas as dimensões da sociedade, a promoção da participação da mulher nas tomadas de decisões nos vários domínios que compõem a sociedade. Por tudo isso o Feminismo é a nossa arma, nossa voz!